segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

caio fernando abreu.

"deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado..."

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

caio fernando abreu.

"...e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasses quase deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno, veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre..."

À Beira do Mar Aberto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

time.after.time




Achei que eu nunca fosse aprender certas coisas. Mas o tempo passa... e muda tudo...
Nos últimos tempos aprendi duas coisas muito importantes. A primeira foi a guardar n'uma caixinha tudo aquilo que já não me faz bem.
Amizades que já não são as mesmas, lembranças que não constróem nada, amores que o tempo levou com ele...
Dedico um tempo a conhecer essas coisinhas, cada detalhe delas. Um tempo pra saborear mais uma vez a pizza com a borda recheada de cheddar, pra sentir mais uma vez o calor da fogueira e o ouvir as vozes familiares falando e sorrindo e cantando... fechar mais uma vez os olhos e fingir que estou acordando com aquele beijo...
Sinto falta pela última vez de um simples olhar e uma risada gostosa e daquele abraço que sabia como me acalmar e do silêncio que falava tanto...
Amo minuciosamente mais uma vez (e pela última) aqueles olhos e aquela boca e aquele sorrisso e aquelas mãos e cada detalhezinho daquela pessoa que sempre teve um lugar tão seu na minha vida...
Não há como conter as lágrimas... afinal não há nada pior que o "nunca" e o "adeus".
E depois de sofrer e amar e cuidar pela última vez de cada uma dessas coisinhas, as coloco em uma caixinha. Uma caixinha com a cor daquele céu estrelado e vagalumes que aparecem aqui e ali, e tem gosto de qualquer uma daquelas bebidas que usávamos pra não ter barreiras, aquelas bebidas fortes e que nos tornava tão frágeis...
E é ali, bem acomodadas na caixinha, que ficam todas essas coisas com gostos e cheiros e saudades e tanto tanto tanto tanto sentimento que vai pesando nos meus ombros carregá-las.
Então entra o segundo grande aprendizado... Abandonar a caixinha. Abandonar todas aquelas caixinhas que pesam e que fazem chorar caso as abra novamente.
Olho mais uma vez e procuro os vagalumes, não mais com a expectativa de vê-los piscando ou com a dor de não encontrá-los... Só resta um sentimento de leveza, algo assim que eu não sei explicar, mas que parece com aqueles chocolates que me faziam tão bem e tão mal, lembra?
E em um dia com céu limpo ou chuvoso ou uma tarde de pôr-do-sol ou uma noite estrelada ou de tempestade com aqueles trovões e relâmpagos que eu tenho tanto medo, deixo a caixinha. No caminho. Que foi tão importante quanto qualquer outra coisa que esteja guardada lá dentro.
Ficam sonhos não realizados, esperanças desbotadas, beijos sem gosto, amores e promessas e toda aquela coisa que ninguém nunca consegue cumprir, ficam todos os "para sempre" com total certeza de um "nunca mais".
Um "nunca mais" leve. E doce.